Era uma segunda-feira. 21:30 o telefone toca. É Jack ao telefone. Ele parece estar exaltado, e já um pouco bêbado. Ele insiste para que vá até a sua festa de despedida. Jack está de partida, vai morar fora do país por alguns anos para terminar seu doutorado.
Apesar de estar cansado, e ser uma segunda-feira. Aceito o convite, por consideração a nossa amizade.

Sua festa era em uma chácara ampla e um não muito iluminada. Logo ao chegar, percebo que não era uma festa “normal”, as pessoas estavam diferentes, era como em cada olhar eu encontrasse um convite para entrar em outro mundo.

Eu já estou cansado e com sono. Pego cerveja e começo a conversar com alguns conhecidos que estão por lá.

Vejo Maria, uma menina com quem tive um caso a uns 3 anos. Ela está mais linda do que nunca. Começamos uma conversa agradável, e ela me conta que acaba de terminar com o seu namorado. Apesar de ligeiramente embriagada, Maria está sóbria o suficiente para rasgarmos boas gargalhadas lembrando do tempo em que estávamos juntos.

Então ela fala: -Como te deixei escapar?

Eu fico meio sem jeito, não sei o que responder, quando menos percebo, quase que involuntariamente estou beijando-a. Me sinto bem. Muito bem.

Ela me convida para uma lugar mais reservado, e vamos para um quarto na república que Jack mora. O quarto não tem muita coisa, apenas uma colchão e um armário quebrado. A luz fraca emana de um abajur de lava.

Como se seguindo uma vontade reprimida, jogo Maria no colchão. Mas então descubro que não é para isso que estamos lá. Com um sorriso inocente ela me oferece algo que me parecia um pedaço de papel.

Eu não entendo muito bem, mas ela me diz: -Vamos apenas aproveitar! Na festa, começa a tocar Lucy in the Sky with Diamonds. Beatles, ah os Beatles!

E então tudo fez sentido. Foi como se não só a música entrasse em mim, mas também cores, vontades e um pouco de melancolia.

Depois de algum tempo eu não sabia mais distinguir o que era realidade e o que era imaginação. Tenho que trabalhar amanhã, essa é minha preocupação! Tenho que acordar pro trabalho.

Era como se as horas se arrastassem e os minutos voassem, era tudo e nada, era euforia e calma.

Procurando voltar à mim, Maria aparece. Mas o que realmente eu estava fazendo? Eu a puxo para mais perto. Abraço-a e sinto o amor em sua plenitude.

Flashes ocorrem. Ora estou no quarto da república envolto por luzes de todos os tipos ora estou em um hospital deitado em uma maca rodeado de doutores e enfermeiros.

Mas o que realmente era aquilo? Um hospital? Que loucura. Eu só estava ali. E Maria também. Nós estávamos ali e nada podia ser melhor.

Junto com a música que rola na festa começo a escutar um balbuciar de pessoas. Também escuto a voz de minha mãe, ela parece estar aflita.

Mas minhas mãe? Ela mora tão longe, não a vejo a tanto tempo. Começo a pensar que essa viajem está além do meu controle.

Começo a ficar aflito, só quero que tudo termine logo. Que horas são? Já é dia?

Em uma tentativa desesperada de acordar deste pesadelo, Maria põe a mão em meu peito, sinto algo bom. Essa sensação é interrompida por um barulho seco. Parece ser uma máquina. Já ouvi esse barulho em algum filme. Parece um… desfibrilador.

Maria some, a luz some, só o que escuto são vozes distorcidas. Escuto alguém chamando meu nome, seria Maria? Eu estou aqui. Não se vá novamente.

Em mais uma de minhas viagens, escuto uma voz estranha: -Ele não vai aguentar! Cada vez menos entendo o que está acontecendo. Luto com minha mente para voltar ao quarto.

Luzes, cores e formas se misturam em minha mente. O que teria feito isso acontecer? Eu queria acordar. Não queria acreditar que tudo isso tinha acontecido pela brincadeira sugerida por Maria. A minha Maria.

Nesse momento tento lembrar por que foi que a deixei escapar. Como foi que terminamos? Será que foi eu que terminei? Faz muito tempo.

Maria está devoluta, tão linda. Ela carrega alguma coisa. O que é aquilo? Parece ser um… machado? Não, não pode ser. É só mais uma dessas visões malucas. Quero acordar. Tenho que trabalhar.

Era como se eu pudesse sentir tensão no ar, mas qual é o problema? meu corpo adormece, sinto algo, o que seria aquilo? Deve ser por Maria estar perto demais.

Ela começa a gritar, eu não quero ouvir. Só quero minha Maria.

Abro o olho. Sinto o gosto de sangue na garganta. Vejo minha mãe. Essa maldita visão que não faz sentido.

Era tudo muito real. Devo ter ativado meu lado masoquista. Eu sentia dor, ao mesmo tempo que me sentia satisfeito por estar ali com Maria.

Mas o que estava acontecendo? O pesadelo finalmente acabou. Agora tudo está mais calmo.

Em uma mistura de sensações, sinto tanta coisa que acabo não sentido nada.

A última coisa que sinto é o amor por Maria.

Texto escrito com a colaboração da @gabrie_a