Seria uma pretensão muito grande tentar descrever esse filme. Tanto que até agora não sei se gostei ou não.

Veja uma ótima resenha sobre o filme:

Exibido pela primeira vez em maio, na mostra competitiva do Festival de Cannes, “Anticristo” chocou parte da imprensa especializada, que saiu antes de a sessão terminar ou vaiou o filme ao final da exibição. Na entrevista que concedeu aos jornalistas após a sessão, Von Trier foi alvo da fúria de alguns críticos, que não entenderam ou não gostaram do filme.

História de “Anticristo” foi concebida durante crise de depressão do diretor Lars Von Trier

Baz Bamigboye, do site do jornal inglês “Daily Mail”, foi o primeiro a interrogar Von Trier. Agressivo, ele se levanta e questiona o cineasta: “O senhor pode, por favor, explicar e justificar por que fez esse filme? E, por favor, dê uma resposta com mais de uma palavra.”

Ofendido com a agressividade do jornalista, mas trêmulo, Von Trier responde: “Não tenho que me justificar”. Bamigboye o interrompe e grita: “Tem, sim!” Von Trier: “Tenho?” Bamigboye: “Tem, sim! Aqui é o Festival de Cannes, o senhor trouxe o seu filme aqui e o senhor tem que justificar por que o fez”.

Von Trier esboça uma reação e diz: “Não posso me justificar. Faço filmes… É uma pergunta muito estranha”. Alguém fala algo, difícil de ouvir, provocando o cineasta, que então sai da defensiva e assume a postura polêmica, pela qual é conhecido.

“Trabalho para mim mesmo. Não devo satisfação a ninguém. Não tive escolha (ao fazer o filme). Foi a mão de Deus, eu temo. E eu sou o maior diretor de cinema do mundo. Não sei se Deus é o melhor Deus do mundo”, completou. A cena da confusão que ocorreu em Cannes está disponível no site do festival e pode ser assistida em francês e em inglês.

Talvez ajude a entender “Anticristo” saber que ele foi realizado pelo diretor na tentativa de superar uma crise de depressão que enfrentava no período. “Não conseguia trabalhar. Seis meses depois, apenas como um exercício, escrevi um roteiro. Foi um tipo de terapia, mas também uma procura, um teste para ver se eu ainda faria algum filme”, contou.

“O roteiro foi finalizado e filmado sem muito entusiasmo, feito como se eu estivesse utilizando apenas metade da minha capacidade física e intelectual”, disse ainda. “O trabalho no roteiro não seguiu o meu modus operandi habitual. Cenas foram acrescentadas sem razão. Imagens foram compostas sem lógica ou função dramática. No geral, elas vieram de sonhos que eu tinha no período, ou sonhos que eu tive anteriormente.”

O filme pode ser encarado como terror, mas o gênero não dá conta de sua complexidade

“Anticristo” relata o drama de um casal em luto, abalado pela trágica morte do pequeno filho. Von Trier apresenta a tragédia num prólogo composto com requintes de crueldade e alguma apelação, no qual nos obriga a ver o menino abrir o berço, caminhar pelo apartamento e saltar pela janela da sala enquanto o casal, entretido, faz amor no quarto.

O americano Willem Dafoe e a francesa Charlotte Gainsbourg (premiada em Cannes como melhor atriz) são os protagonistas únicos da história. Ela é uma historiadora; ele, um terapeuta. Incapaz de superar o luto, ela afunda-se na cama, enquanto ele resolve assumir a responsabilidade pela terapia que vai tirá-la da depressão.

O casal embarca então para uma casa no meio de uma floresta, chamada Éden. É lá que Von Trier coloca todos os demônios para fora. Realidade, sonho e pesadelo se misturam de tal forma que, para muitos críticos, “Anticristo” é visto como um filme de terror – uma classificação que não dá conta de sua complexidade.

“Anticristo” haverá de surpreender mesmo aquele que viu outros filmes do diretor, como “Dançando no Escuro” (com Bjork), “Os Idiotas” ou “Dogville”, todos ousados e originais. É preciso alertar o espectador que há algumas cenas muito violentas, de mutilação sexual, capazes de agredir os espíritos. Na sessão para jornalistas que compareci, antes do início, a assessora se certificou se não havia nenhum menor de idade na sala.

“Anticristo” aborda temas altamente polêmicos. A idéia de que a natureza é má (“é igual a satanás”, diz um dos personagens), por exemplo, é fundamental na construção do filme. Religião, crendices e cultura se confundem numa salada tão envolvente quanto assustadora ao longo do filme.

Von Trier também coloca em questão a chamada psicoterapia cognitiva, uma alternativa menos profunda que a psicanálise, mas útil para resolver alguns tipos de problemas, medos e traumas. O terapeuta, no filme, convence sua mulher a abandonar os remédios que vinha tomando e a superar o luto elaborando uma lista com os seus maiores medos.

É, como o próprio diretor tem defendido, “um filme sem regras”, sem uma lógica facilmente explicável. Não expressa necessariamente a opinião do diretor sobre alguns dos assuntos que aborda, mas sim a sua inquietação artística e a vontade de levar o espectador a um lugar que ele não conhece.

Por: Mauricio Stycer, repórter especial do iG, disponível em: http://twurl.nl/v1wam4